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Finais

Ideia para três contos

Luis Fernando Verissimo

Um posto de gasolina. Noite. Dois carros entram no posto quase ao mesmo tempo. Um dirigido por um homem, o outro por uma mulher. Para simplificar: João e Maria. Os dois com idades parecidas, jovens. Enquanto os frentistas abastecem os dois carros, entra no posto um terceiro carro. Pela janela do terceiro carro, uma mulher grita, desesperada:

- Me ajudem! Me ajudem!

Os frentistas ficam paralisados. João e Maria não sabem o que fazer. Se a mulher está sendo assaltada, não querem chegar perto. Mas a mulher grita:

- Eu estou tendo um filho!

Os quatro correm para acudi-la.

A mulher está sozinha no carro. João se oferece para levá-la a um hospital. Ela grita:

- Não dá tempo! Não dá tempo!

- Tem que ser aqui mesmo — diz Maria. — No banco de trás.

Transferem a mulher para o banco de trás. Um dos frentistas vai chamar uma ambulância. O outro vai buscar uma toalha, um pano limpo, lenço de papel, qualquer coisa.

João para Maria:

- Você sabe o que fazer?

- Não tenho a menor ideia. Você?

- Acho que é só esperar e, sei lá. Aparar a criança.

Mulher:

- Ai. Já vem. Ai meu santíssimo. Já vem!

João:

- Calma.

Maria, para a mulher:

- Segura a minha mão. E faz força.

João:

- Calma.

Mulher:

- Está saindo! Está saindo!

Quando a ambulância chega o bebê já nasceu. Mãe e filho são levados para um hospital. João abraça Maria, que está tendo uma crise de choro. Maria, quando consegue se controlar, diz:

- Não sei como você pode ficar tão calmo.

- Não era calma. Era pavor.

- Você viu que o bebê tinha uma marquinha no braço? Um coraçãozinho.

- Não vi. Só vi que era homem.

- Que ideia da mulher, dirigindo grávida. Devia estar indo pro hospital. Sozinha. Por que ela estava sozinha?

- Isso nós nunca saberemos.

- Mas nós nunca vamos esquecer esta noite, vamos?

- Nunca.

E os dois se dão “tchau”, entram nos seus carros, pagam pela gasolina e saem, cada um para um lado.



Maria, João e desfechos distintos para uma mesma história.


FINAL 1

Dez anos depois, João e Mana se reencontram num navio de cruzeiro, rumando para a Patagônia. Ela está com o marido. Não o reconhece. Ele diz: “Fizemos um parto juntos, lembra?” Ela: “Você!”. Ele: “Nunca esqueci do seu rosto segurando a mão daquela mulher. Acho que foi a coisa mais bonita que eu vi na minha vida” Ela diz que nunca esqueceu aquela mulher sozinha, tão terrivelmente sozinha. Ele diz: “Eu nunca esqueci você”. E conta que está no cruzeiro para se recuperar do terceiro divórcio.


FINAL 2

Um dia depois, João e Maria se reencontram na recepção do hospital onde os dois foram visitar a mãe e o recém-nascido. Têm dificuldade em descobri-los, pois não sabem o nome da mulher. Finalmente descobrem. Mãe e filho passam bem. A mulher se chama Irma, e o menino, Rudimar (“nome do avô”, diz a mulher). João e Maria aceitam ser os padrinhos de Rudimar. No batismo, os dois já estão de mãos dadas. Irma e Maria acabam abrindo uma butique juntas, mas Irma nunca conta a Maria por que estava sozinha naquela noite.


FINAL 3

Quinze anos depois, João e Maria se cruzam na rua. Os dois se reconhecem, se abraçam e ele a convida para tomarem um chope num bar. O bar é assaltado por um garoto armado. João se levanta para reagir. Segundos antes do garoto disparar contra os dois Maria vê que ele tem um sinal no braço. Um coraçãozinho.


Domingo, 7 de fevereiro de 2010.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.